10 fevereiro 2007

Pro dia nascer feliz, imperdível documentário de João Jardim


Um dos mais impressionantes documentários sobre a realidade nacional. No caso, um rico, vasto e sensível painel do estado da educação no Brasil através de depoimentos emocionantes de jovens do ensino médio e de professores de três diferentes regiões brasileiras. Da menina Valéria que recitava poesias no longínquo sertão nordestino, lutando contra toda sorte de adversidade social, mas com um sentido de criação que chega a nos enrubescer. Pois, o que temos de reclamar por não realizar um projeto sem condições objetivas diante de tanta escassez de tudo? É emocionante o depoimento de Valéria que afirma que ninguém na escola acreditava que era mesmo ela que compunha seus poemas. No extremo oposto da esquizofrênica pirâmide social brasileira, o diretor colhe com admirável sensibilidade as angústias dos jovens de classe média alta dos tradicionais colégios confessionais do Rio de Janeiro e São Paulo, superexigidos por pais, professores e amigos. Um painel de recursos tecnológico-educacionais abundantes, muita expectativa de competição e muito pouco afeto.
Mas meio a estas extremidades, o diretor João Jardim nos surpreende com a realidade mundo-cão das escolas das favelas das periferias do Rio e São Paulo. Escolas dantescas largadas à incúria das autoridades públicas, dentro do tradicional quadro de irresponsabilidade política e de ausência de cidadania característico de nossa cultura de impunidade e de pastiche. Professores que fingem ensinar e alunos que fingem aprender, aqueles cativos do terror de alunos delinqüentes e estes do narco-tráfico que coabita muro-a-muro com a escola e alicia os jovens para o ilusório mundo das conquistas fáceis, alimentadas pela alienação consumista da mídia.
Os depoimentos que se seguem são de cortar o coração de qualquer cidadão que tenha um filho brasileiro em idade escolar. Os jovens favelados de menor afirmam com escárnio que não tem lá muito problema roubar alguém ou até mesmo matar se for para livrar a cara, pois o máximo que vão pegar são três anos na Febem. Além do que sai na televisão todo o dia que os políticos roubam muito mais e não são presos, o que justifica a criminalidade geral da sociedade são justamente seus políticos.
Basta ligar a televisão e está lá: o crime no Brasil compensa!
Grande e dura aula de cidadania brasileira para tomarmos ciência o quanto antes que, se a educação e as instituições jurídico-políticas estão sucateadas no Brasil, só sobra mesmo a mídia para salvar o país da barbárie. Até por que o círculo vicioso da violação legal e da violência social não interessa mais a ninguém, sobretudo aos mais abastados que falam tanto dos entraves e gargalos da economia e se omitem do dever de dar o exemplo da iniciativa e da participação política.
Trata-se pois de um documentário imperdível para os cidadãos verem e recomendarem!

http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/pro-dia-nascer-feliz/pro-dia-nascer-feliz.asp

21 janeiro 2007


O Festival de Salzburg,
Um filme dirigido por Tony Palmer

Para quem não pode se dar ao luxo de freqüentar o Festival de Salzburg, pode fazer uma viagem completa pela sua história nesses últimos 80 anos de existência, incluindo farto material de época, depoimentos e revelações inéditas de ilustres freqüentadores e responsáveis pelo sua realização, direção e produção, desde seu surgimento, passando pelo nazismo, até os dias de hoje. Sai enfim o filme sobre o mais prestigiado festival de música e ópera do mundo em DVD, dirigido pelo cineasta inglês Tony Palmer e disponível em qualquer boa locadora de vídeo.
Criado no ocaso do império austro-húngaro logo depois da primeira grande guerra, por dois expoentes da cultura austríaca deste último século, o poeta Hugo Von Hofmannsthal (libretista de grande parte das óperas de Richard Strauss) e o diretor de teatro Max Reinhardt exatamente para afirmar perante o mundo a identidade nacional da Áustria, passaram por ele as maiores estrelas mundiais da ópera e do concerto como Arturo Toscanini, Maximiliam Schell, Klaus Maria Brandauer, Wilhelm Furtwängler, Peter Sellars, Herbert von Karajan, Plácido Domingo, Fischer-Dieskau, Daniel Barenboim, Maurizio Pollini, até astros do momento como Anne-Sophie Mutter, Mitsuko Uchida, Valery Gergiev, Lang Lang, Anna Netrebko, Riccardo Muti and Simon Rattle e tantos outros fazendo depoimentos inéditos sobre suas relações com o Festival.
Não somente pela aura de ter sido o berço de nascimento do mais genial compositor da história da música, o grande Mozart, Salzburg mantém o ambiente mágico para o lançamento das grandes performances, como a primeira ópera italiana regida por Toscanini na década de 20, os lançamentos das óperas modernas a partir de Richard Strauss e toda a controvérsia sobre as performances históricas da ópera Jedermann no contexto de ascenção do nazismo. Com depoimentos e registros filmográficos de época, este documentário é imperdível inclusive para os que já tiveram a chance de assistir ao Festival de Salzburg ao vivo, pelo montante de revelações históricas que traz.


Mais informações do DVD com 195 minutos de duração:
http://www.digitalclassicsdvd.co.uk/product.asp?ProductID=940

13 janeiro 2007


Documentário Brilhante sobre o filme Diamante Bruto

Já se disse que toda arte é antes de tudo arte sobre arte. Uma experiência estética de um autor sobre outro autor. Uma resenha sentimental sobre os autores que o autor mais admira e mais lhe impressionou. O que se convencionou chamar de o caráter metalinguístico da obra de arte. Pois bem: este documentário Brilhante é o filme sobre um filme.
Em 1977, o cineasta Orlando Senna realizou Diamante Bruto, um filme que se passa em Lençóis, uma pequena cidade da Chapada Diamantina, na Bahia, que sofria com a decadência da extração de diamante, sua principal atividade econômica. Quase 30 anos depois, Conceição Senna filma Brilhante, um documentário sobre como o longa anterior foi responsável pelo progresso da cidade.
Contando com depoimentos dos moradores, o filme narra a história da cidade desde a filmagem de Diamante Bruto, até os tempos atuais, mostrando o desenvolvimento turístico da cidade obtido através da sua divulgação na produção de 1977.
O documentário foi desenvolvido através de uma oficina de roteiro realizada em Lençóis por Orlando Senna, marido de Conceição, em 2000. A diretora, que também foi atriz de Diamante Bruto, percebeu pelas conversas com moradores, que a história poderia render um belo filme, complementando o anterior. Brilhante participou de diversos festivais, entre eles o Brazilian Film Festival, de Nova York.
Vale a pena conhecer mais este recanto de nosso enorme país. País que de vez em quando parece não caber dentro da nossa capacidade de compreendê-lo e admirá-lo em toda a sua imensidão e diversidade.

07 novembro 2006


O povo não é bobo! Salve a rede Globo!

A democracia sem cidadania é como Denorex, lembram? Parece que é mas não é. É demagogia, palavra que tem a mesma raiz demos, povo, mas com a fatal diferença do sentido ativo do sufixo cratia, governo, que se reduz ao sentido passivo de agoein, conduzir. Muito já se comentou na mídia sobre as razões da vitória do presidente Lula, mas avaliar a derrota do PSDB pode qualificar o debate político da cidadania. O PSDB perdeu a eleição por que ficou cativo da demagogia e não conseguiu argumentar com credibilidade e coerência suas diferenças doutrinárias e seu compromisso democrático. Não foram apenas as suas hesitações internas na demora de definição do candidato, que nunca teve a hegemonia de apoio cabal entre seus próprios quadros, aspecto fatal num embate em que se confrontam apenas duas estratégias argumentativas majoritárias, em que Lula é um símbolo de consenso maior acima de quaisquer correntes partidárias. Mas o transbordamento desta divisão para o espaço público chega à reta final da campanha com a decisão catastrófica de se publicar um manifesto de apoio à candidatura de Alckmin assinado pelos próceres do próprio partido, como se ainda pairasse dúvida quanto ao apoio sincero de todos os seus membros. Por outro lado, a decisão marqueteira de trocar o nome político do candidato pelo apelido falsamente íntimo e popular de Geraldo transparece um preconceito arrogante de achar que o povo teria dificuldades com a prosódia estrangeira de seu sobrenome. A partir daí, sucederam-se os equívocos da tentação demagógica que entra em clara contradição com os próprios argumentos programáticos do partido. Geraldo está sempre na defensiva para negar que não cortará o orçamento dos programas sociais, que não privatizará estatais, que não cortará custos da máquina governamental, ao mesmo tempo em que não defende de maneira inequívoca os avanços palpáveis dos governos do PSDB. O que mostra em sua campanha de jingles e spots de falso apelo popular são justamente as iniciativas assistencialistas que seu programa de governo condena, como restaurantes populares, cestas básicas, de medicamentos, cheques de habitação popular etc. E aí transparece a contradição fatal entre a racionalidade e eficiência do choque de gestão prometido e a demagogia concedida.
Justamente o grupo político que se acha titular da modernidade dos costumes políticos nacionais perdeu a oportunidade única de qualificar o debate político nacional em torno de questões cruciais como os programas de privatização. E caiu na armadilha do preconceito e da arrogância quando julgou que o Brasil se resume ao eleitorado de classe média dos grandes centros urbanos, confundindo baixo nível de escolaridade com o aumento considerável da percepção política das grandes massas de cidadãos comuns, dada inclusive pela própria mídia de massa brasileira. Muito embora a cobrança implacável por ética por parte da maioria dos colunistas políticos dos grandes veículos da imprensa, ficou claro que o debate democrático popular não se limita mais aos discursos da razão dos postulantes, mas também à boa arte e estilo de como apresentam as suas idéias, não apenas em torno do que, logos, ou de quem, ethos, mas em torno do como, pathos. Se o Brasil possui uma das maiores democracias de massa do mundo, uma maioria de cidadãos que cultiva valores e tradições muito fortes de justiça, tolerância, liberdade e propriedade e que percebe perfeitamente o jogo de hipocrisia de políticos que querem se passar por mais honestos do que outros ao invés de discutir propostas de governo concretas, nunca foi tão verdadeira a máxima de que não se pode enganar todos durante todo o tempo. Sobretudo uma massa de tele-eleitores acostumados com o alto padrão global da teledramaturgia que lhe é servido diariamente através de nossas telenovelas. Podem não saber acompanhar com mais profundidade os grandes debates programáticos da política mundial entre as funções do Estado, a estabilidade institucional, os sentidos e resultados de programas de privatizações, o controle social sobre a administração pública etc, que os colunistas da grande imprensa tentam lhes oferecer na sua olímpica pretensão de isenção e neutralidade, mas sabem como ninguém o que diferencia um político sonso e boquirroto de um político empenhado e sincero. Pois o modelo de confronto não se limita ao discurso racional dos próprios políticos que nos querem convencer de suas verdades, mas os imbatíveis atores das novelas globais empenhados na persuasão cotidiana do verossímel. Pois neste planeta de nosso imaginário não há nada que escape à pedagogia (outra vez agoein, conduzir + pedos, criança) política de cortante didática de nossos Cassetas, um tele-curso intensivo a treinar diariamente a percepção das diferenças entre o grotesco da representação teatral e a sinceridade da representatividade política, sempre a serviço da cultura de plena cidadania do tele-eleitor brasileiro.

06 novembro 2006


Teatro Musical
Carlos Machado - O rei da noite.

Atores, cantores e bailarinos revivem a vida do produtor Carlos Machado, desde os anos 30 em Porto Alegre até seu início no Cassino da Urca e a década de 60.
Com Marcelo Augusto, Elisabeth Gasper, Márcio Gomes e outros.
Tex. e dir.: Paulo Afonso de Lima.
Teatro Glória.
R. do Russel, 632, Glória. Tel.: 2555 7262.
Horário: De qui a sáb, às 20h; dom, às 19h;
Preço: R$25.
Período: Até 26 de novembro.

Entre tantos agradecimentos da abertura do espetáculo, é citada a dupla de produtor e diretor Cláudio Botelho e Charles Muller, com justa razão, pois se trata dos responsáveis pelo revival da qualidade primorosa e da tradição do teatro musical brasileiro. Havia décadas que nosso musical estava em decadência, como demonstra a história de Carlos Machado levada ao palco por um belo e ágil roteiro e direção de Paulo Afonso de Lima. Coincidência ou não com a rebordosa geral da ditadura militar, o fato é que só agora com a redemocratização do país de vinte anos pra cá, é que retomamos uma tradição que vem da década de 30. Vale a pena conferir mais esta manifestação de busca incessante de nossa identidade cultural para o resgate de nossa auto-estima.

03 novembro 2006


Eu me lembro, filme de Edgard Navarro

Longa que ganhou o primeiro prêmio do 38º Festival de Cinema de Brasília do ano passado, entra agora em circuito comercial nas principais capitais do país. Dirigindo seu primeiro longa aos 56 anos, apesar de ser um premiado curta e média-metragista há 30 anos, Edgard Navarro escreve também o roteiro de um filme autobiográfico, mas com fatos e vivências de toda uma geração de brasileiros nascidos e crescidos sob os anos de chumbo da ditadura militar. O filme é uma espécie de Amarcord baiano. Um inventário dos grandes movimentos que mudaram a face do país de meados da década de 50 até a década de 70.
Guiga, o protagonista, aparece, criança, numa Salvador provinciana. No contato com a mãe, Aurora, descobre a sexualidade e seus limites. Com o pai, Guilherme, temível, austero e puritano exacerbado, viverá muitos conflitos. O garoto cresce movido por culpa católica. Sexo e Deus são tabus. A morte da mãe, quando ele era pré-adolescente, o marcará profundamente.
Jovem, nutrirá raiva muda pelo pai. Um dia, este sentimento explodirá em episódio dramático. A literatura e o cinema lhe darão acesso ao mundo dos poetas e visionários. A Ditadura Militar, a universidade, a guerrilha urbana, novas experiências de vida, o desbunde, quando "tudo explode colorido no sol dos cinco sentidos".
Há que se ressaltar a deliciosa e impecável pesquisa de produção com cenários, adereços, mobiliário, impressos e músicas de época, inclusive os mais famosos jingles de rádio e televisão da nascente indústria da publicidade brasileira. Um belo panorama de nossa história recente dentro da linha de nossa atual compulsão pelo auto-conhecimento no cinema, na literatura, na história política e em tantos outros campos da expressão cultural brasileira. Fenômeno de busca de nossa auto-estima perdida como temos nos referido aqui na Voz do Cidadão.

2/6/06

28 outubro 2006

Interpretações do Brasil




CCBB Rio de Janeiro
Dias 6, 11, 18, 19, 20, 25, 26 e 27 outubro

As diversas interpretações do Brasil feitas por seus pensadores, intelectuais que marcaram época e contribuíram, determinantemente, para a construção da identidade nacional brasileira ao longo da história deste país, serão apresentadas por estudiosos e acadêmicos com pesquisas e trabalhos publicados sobre a obra desses verdadeiros clássicos das ciências humanas brasileiras. Esse é o quadro que será montado no decorrer dos 08 encontros onde Carlos Lessa, Helena Bomeny, Ricardo Benzaquem de Araújo, André Botelho, Ronaldo Conde Aguiar, Aluizio Alves Filho colocarão em debate, respectivamente, o pensamento de Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Gilberto Freire, Oliveira Viana, Manoel Bonfim, Florestan Fernandes, Monteiro Lobato e Sérgio Buarque de Holanda. Curadoria de Michel Misse.

Pena que não pude assistir a todas as palestras, mas foi uma experiência maravilhosa ter assistido pelo menos às duas últimas. É fantástica a afluência de jovens que lotaram todas os lugares disponíveis. Tomara que o curador professor Michel Misse do IFCS da UFRJ se motive a repetir o ciclo, pois está provado, ao contrário do que muitos céticos de plantão andam a falar, nossos jovens estão sedentos de conhecer nossa identidade exatamente quando a mídia mais expõe a miséria de nossa cultura política.