20 outubro 2010

O futuro de uma ilusão, de Sigmund Freud


Editora Delta, Rio de Janeiro, 1959

É o texto sobre as funções da crença religiosa da humanidade depois de sua experiência do abandono edênico, segundo todas as genealogias judaico-cristãs. É a profissão de fé de Freud num futuro de supremacia da razão e da verdade científica como meio de libertar o homem de sua condição originária de desamparo natural. Escrito em 1927, o texto dá continuidade à tese da horda primitiva exposta em Totem e Tabu de 1913 e segue a onda de questionamento usual das religiões típica da tradição romântica. Assim como Marx já havia declarado em 1844, que a religião era o ópio do povo, Freud vai demonstrar que a religião é “a neurose obsessiva universal da humanidade” , que depende de sentimentos infantis não resolvidos de expiação da culpa pela morte do pai primitivo, bem como seus dogmas são apenas uma forma de ilusão de segurança e proteção contra as vicissitudes da vida, uma expressão eloqüente da atrofia intelectual da maior parte dos seres humanos.

Desprezando qualquer diferença entre os conceitos de cultura e civilização, Freud a define como toda sorte de criação e construção material e imaterial da humanidade com o fim de tentar livrá-la do estado de natureza como ameaça perene à sua sobrevivência e fonte maior de seu sofrimento. Tal qual a própria organização religiosa, a fraternidade da coesão social é advinda diretamente da coerção social, da renúncia dos impulsos do instinto individual e da aceitação dos limites da lei como garantia de segurança de todos.

Embora não tenha imaginado a que ponto de agressividade e destrutividade o homem alcançaria com a ascensão do fascismo e do nazismo, Freud já criticava a ilusão comunista da revolução russa de 1917. Independente do estágio civilizatório que até então tenha alcançado, o homem conseguiria sobrepujar os desejos instintivos do incesto e do canibalismo, mas ainda não os da ânsia de matar e de roubar seus semelhantes. As religiões teriam um importante papel de frear tais instintos, mas com relativos graus de sucesso em diferentes épocas e lugares. Freud aponta, ao lado das religiões, as próprias artes como forma de alívio e de compensação simbólica pelas pesadas renúncias instintivas que o homem se impõe fazer para manter a vida civilizatória.

Neste sentido, liberal que é, e seguidor do contratualismo hobesiano, Freud é mais iluminista do que a tradição socialista de Rousseau e Marx. Pois não acredita na construção ideal do Estado como Deus possível e pai sublimado, nem tampouco na sua futura eliminação quando do alcance do estágio mais avançado da fraternidade comunista, mas o toma como amargo paliativo de coerção e coesão social, o chamado mal necessário. Ao contrário de uma tradição positivista, por exemplo, Freud afirma que a ciência é o último estágio de desenvolvimento da humanidade, ultrapassando os estágios primitivos da religião e da metafísica. No lugar da ferramenta da crença religiosa e da especulação filosófica vai propor a psicanálise como método imparcial de investigação humana e um novo campo de saber para a compreensão da alma humana e de suas relações com a própria vida social. Mas a função do direito enquanto método de busca da justiça entre os homens não compreende a prática religiosa, que Freud alude. Direito este que busca em Deus ou no testemunho sagrado, senão o próprio sentido ou inspiração da justiça, pelo menos a fonte de expressão da coerção legal. É o que Freud irá explorar em outro texto polêmico e o último de sua vida Moisés e o monoteísmo, de 1938.

Mas um dos momentos altos do Futuro de uma Ilusão é quando Freud recorre a um diálogo consigo mesmo, tratando-se na terceira pessoa, como a se questionar com mais rigor sobre os fundamentos de sua crença racionalista de que a ciência, enfim, superará a religião na explicação e superação do desamparo humano.

Acesse o texto completo em:
http://www.scribd.com/doc/31041716/Sigmund-Freud-O-Futuro-de-uma-Ilusao-O-mal-estar-na-civilizacao-e-outros-trabalhos-rtf

31 agosto 2010

Vincere, o filme


Vincere, de Marco Bellocchio
Uma superprodução filmada como uma verdadeira ópera dramática e extremamente moderna e romântica. Quando histórias afetivas e políticas se encontram na biografia de um líder carismático. Assim como cenas atuais e produzidas com requinte realista são entremeadas de cenas de documentários de época com maravilhosos detalhes de tratamento de direção de arte modernista e futurista. Vide por exemplo a tipologia usada nos letreiros, os adereços das bandeiras e panfletos de propaganda e agitação políticas, a trilha sonora grandiosa e as citações da arte e do manifesto futurista de Marinetti.
Sinopse: a narrativa revela um segredo na vida de Benito Mussolini (Filippo Timi): uma mulher, Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), e um filho, Benito Albino, que nasceu, foi reconhecido, e em seguida renegado. É uma página negada e ignorada da história da Itália e na biografia oficial do Duce. Quando Ida conhece Mussolini em Milão, ele é um fervoroso socialista que pretende conduzir as massas contra a Igreja e a monarquia. Ela acredita nele e em suas ideias e vende tudo o que tem para financiar Il Popolo d`Italia, um jornal que Mussolini funda e que servirá como núcleo do futuro Partido Fascista. Quando a Primeira Guerra Mundial irrompe, ele se alista no Exército e desaparece. Ao reencontrá-lo algum tempo mais tarde casado com outra mulher, Ida exige seus direitos como verdadeira esposa e mãe de seu filho primogênito. Levada à força, fica trancada por mais de 11 anos em um asilo de loucos, onde é amarrada e torturada, e nunca mais verá seu filho.
Célebre é a citação de Mussolini sobre a dupla negação da Igreja Católica e da aristocracia industrial italiana: “Com as tripas do último papa iremos estrangular o último rei.” Assim como a raiz anarquista do próprio fascismo na célebre divisa de Blanqui: - Quem tem arma, tem pão!
Na verdade o enredo do filme é a convergência histórica do socialismo com o romantismo, não pelo seu fim, uma vez que o socialismo se trata de uma concepção política e o romantismo essencialmente estética. Mas não podemos descuidar da semelhante natureza de ambas visões-de-mundo voluntaristas, egocêntricas, emocionalmente exacerbadas, apaixonadas e comprometidas mais com os movimentos de rupturas e contraposições do que o equilibrado e harmonioso classicismo. Nesta época estão a surgir os elementos essenciais das revoluções políticas e culturais: a imprensa independente, o cinema (ainda que mudo) com imensa força expressiva, a extrema audácia da música atonal, o desassombro da pintura abstrata e as exposições de artes plásticas, as sociedades filarmônicas e o comércio das galerias; o voto universal, o anticlericalismo e a emancipação feminista. Uma menção importante também é o avanço da psiquiatria e a denúncia de seu uso como arma política. Tudo contribui para a emergência do republicanismo e do surgimento da consciência de cidadania na sua expressão política a mais independente. Vale a pena se deliciar com o exuberante painel dos mais variados elementos de uma produção de época que há muito não se via.

Site oficial e trailers: http://www.ifcfilms.com/films/vincere
http://www.youtube.com/watch?v=JPHj_pp3a48
http://www.youtube.com/watch?v=XeaRJxJcp7E&NR=1&feature=fvwp

09 agosto 2010

Freud y su concepción político-social, Paul Roazen


Pensador também se dedicou ao dilema da liberdade e da lei

Este ensaio do pensador e historiador norte-americano da psicanálise Paul Roazen (1936 – 2005) aborda tópicos da filosofia política presentes nas obras culturais do criador da psicanálise, tais como religião e religiosidade, agressão e agressividade, autoridade e poder, penas, castigos e coesão social, bem como o dilema da liberdade e da lei, o que nos leva a indagar do que teria Freud realmente extraído da tradição contratualista da filosofia política de autores como Rousseau e John Locke para quem inexistia contradição entre a liberdade e a lei. Mas muito pelo contrário, a lei seria a própria garantia das liberdades individuais.

Os ensaios sobre a agressividade humana são elaborados a partir de uma troca de correspondência entre Freud e o cientista Einstein em ambos os momentos do impacto de ocorrência da primeira e segunda guerras mundiais. Neste particular, inclusive, Freud chega a prever a necessidade de criação de uma autoridade supra-nacional para arbitrar os conflitos inter-nacionais, como uma ONU que seria fundada apenas em 1945. As referências aos mitos da horda original do Totem e Tabu e do sentimento de culpa pelo parricídio do Mal-estar na civilização dão conta das origens da lei e coesão social. É a resposta de Freud à indagação de Gustave Le Bom sobre a deterioração da ação social humana em face mesmo da sua ação individual. Para Freud se trata de uma regressão infantil da vida em sociedade pela dolorosa experiência da horda original que não permitirá – pela instituição do remorso e da proibição do incesto e do assassinato – que o lugar do pai possa ser ocupado por um indivíduo tentado a usurpar o gozo do poder sobre os demais. De uma concepção genealógica sobre a coesão social em Totem e Tabu e Mal-estar na civilização, Freud vai evoluir para uma concepção propriamente psicanalítica da vida social em Psicologia das massas e análise do eu, onde a relação política básica consistia numa relação erótica, da massa com a autoridade, dos filhos disputando com o pai o amor da mãe.

Mas o evento político que definiu propriamente a concepção política de Freud foi a Revolução Russa, uma vez que os revolucionários foram intransigentes para com a psicanálise enquanto uma visão enfática da subjetividade humana. A partir da perseguição da psicanálise em 1929, Freud declara o comunismo incompatível com seu pensamento. Se no Futuro de uma ilusão Freud vai assinalar as crenças religiosas como uma deliberada recusa ao amadurecimento do homem, e mesmo de seu equilíbrio psíquico, não deixará de incluir nessas crenças as ideologias políticas que galvanizaram os corações europeus dos anos 20 e 30. O que torna sua visão política surpreendente ao se imaginar que, embora morte em 1939, ainda viveríamos mais sessenta anos (até 1989) para o convencimento geral da insustentabilidade de um muro de Berlim e, junto com ele, das bases podres de um estado Leviatã.

Sobre a vida de Freud veja:
http://www.youtube.com/watch?v=yrbHMI3yshI&feature=related

09 julho 2010

Angelo de Aquino, três anos de morte


Em 27 de junho de 2007 era publicado nos jornais do Rio de Janeiro o anúncio de uma missa de 7º dia de morte do artista plástico mineiro-carioca Angelo de Aquino (1945 – 2007), por iniciativa de seus inúmeros amigos, e em cujo cabeçalho estampava a figura em silhueta do cachorro Rex, ocupando justamente o lugar tradicional do crucifixo. Mas o que nos chamou a atenção não foi apenas a figura do cachorro Rex, uma espécie de marca-símbolo da obra do pintor, ocupando tal lugar. Afinal, nada mais natural que o fizesse, uma vez que esteve presente em inúmeras de suas telas pelo menos nos últimos 20 anos, metade da vida artística de Angelo de Aquino, quando não foi o tema central de várias, e também o seu próprio alter-ego, como a ele se referia o próprio artista. O que é de se ressaltar é o valor da liberdade como condição sem a qual não pode haver a própria expressão da arte. Pois o artista reivindica da sociedade exatamente o direito de quebrar expectativas, romper códigos e sistemas de significação, ir contra a corrente, afirmar singularidades e até mesmo sua excentricidade. O que deve ser garantido pelo Estado como meio de afirmação da cidadania em última instância. E este é o caso aqui.

Angelo de Aquino marcou a sua obra com a figura do cachorro Rex quando o distinguiu meio a um projeto de representação de um completo bestiário brasileiro. A partir daí, tal qual no cotidiano da vida urbano do Rio de Janeiro, Rex passou a visitar cotidianamente a obra do artista. Por que não o visitaria no seu anúncio de morte? Como na lenda do cachorro da raça terrier Greyfriars Bobby, que ficou conhecido em Edimburgo, Escócia, no século XIX, por acompanhar e permanecer no túmulo de seu dono até a sua própria morte, 14 anos depois. Rex não é apenas um símbolo de lealdade, mas de fidelidade na obra de Angelo de Aquino. Fidelidade como marca de procedência, garantia de originalidade, presença do cotidiano urbano sempre constante em cada peça da obra do artista, um elemento a mais da paisagem de uma cidade grande destacado com capricho e ironia pelo autor. Num país em que o pensamento dominante é de um Estado provedor e tutelador de todas as demandas dos cidadãos, é muito oportuno assinalar a sua verdadeira missão de se limitar a garantir a liberdade maior de se contrariar a opinião geral. Pois entre seus maiores direitos cabe ao cidadão digno deste nome o direito a ser excêntrico, assim como a expressão do verdadeiro artista sempre será destoante do senso comum.

Veja mais no site do artista: http://www.angelodeaquino.com.br/
Acesse a história de Bobby: http://www.youtube.com/watch?v=yPWBi_kM8tI

30 junho 2010

O mal-estar na civilização, de Sigmund Freud


O mal-estar na civilização, de Sigmund Freud
Edição Standard, volume XXI, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1969

Durante os anos vinte e trinta, entre a Primeira e Segunda Grande Guerra, o advogado e militante do Partido Liberal (entenda-se, de esquerda) inglês William Beveridge esteve envolvido na mobilização e controle social de uma política pública de seguridade, o que viria a ser chamado de Welfare State a partir de 1945, com a fundação do NHS - National Health Service em 1948. Mas o tema acadêmico e o foco político do trabalho de Beveridge já eram conhecidos desde 1919 quando se tornou diretor da LSE – London School of Economics e onde permaneceu até 1937. Em 1941, o gabinete liberal de Churchill encomenda o relatório sobre a situação social inglesa durante a Segunda Grande Guerra com as recomendações para a erradicação dos chamados Cinco Grandes Demônios da fome, doença, ignorância, insalubridade e desemprego da população.
Mas o que Beveridge buscava, na verdade, não se limitava a um Estado de bem-estar social, senão uma sociedade de bem-estar em si mesma. Em pleno esforço de guerra do governo Churchill, o Welfare State não estabelecia seus programas apenas às custas do déficit das contas públicas, mas às custas de contribuições negociadas entre os próprios sindicatos, e como meio de garantia de um nível básico de subsistência, sem ingerência na liberdade de gestão da renda do cidadão, essência de sua autonomia. Era o reconhecimento do governo inglês de sua responsabilidade em cuidar do cidadão “do berço ao túmulo” (do slogan original, ”from craddle to grave” ou “from womb to tomb”).
Este é o contexto em que Sigmund Freud (1856-1939) se encontra em Londres quando de seu exílio voluntário e fuga do nazismo que tomava conta da Europa continental. Um pensador revolucionário indo ao encontro da experiência política democrática mais arrojada da Europa.
A questão que nos provoca, todavia, são as relações que podemos estabelecer com o surgimento da idéia e da política pública do Welfare State e, no contraponto, da doutrina freudiana do Mal-estar na civilização. Pois à primeira vista parece que Freud não vislumbra na nova organização do Estado um instrumento de mitigação das três grandes fontes de mal estar e infelicidades humanas: a debilidade e envelhecimento do corpo, as catástrofes da natureza e a vida social e política dos homens. Ou seja: a inequívoca mitigação, senão a extinção de pelo menos parte, das três fontes de infortúnio do homem com a evolução das instituições organizadas do Estado, num ambiente de crescente participação democrática do cidadão, não está evidenciada, se quer mencionada, no texto de Mal-estar na civilização (só há uma única citação da palavra Estado no capítulo final do livro). Costumamos, inclusive, e não apenas em português, a grafar a palavra Estado com e maiúsculo, como se o tomássemos como um Deus moderno. Todavia, esta nova forma de “religião” se trata de uma nova esperança na eterna busca humana da felicidade. Se a instituição da família patriarcal, assim como as religiões em si estão em declínio, estão também em declínio suas funções de educação e formação do cidadão, suas funções de julgar e arbitrar os naturais conflitos da vida em sociedade e, sobretudo, seu papel político de mediar a dominação e o poder entre os cidadãos e seus governantes. Curioso o fato de que o mesmo Freud, que já havia retomado em sua obra fontes históricas tão primárias como o Totem e Tabu, ou mesmo mais recentes como Moisés e o berço da civilização monoteísta judaica, não tenha dado relevo a um evento contemporâneo e tão vizinho quanto à ampliação das funções do Estado do Bem-estar e a extensão de suas atribuições clássicas judiciárias e de segurança para as atribuições de provisão de educação e saúde. Sobretudo como nova iniciativa de mitigação da infelicidade humana. O que o torna uma nova tentação de ente onisciente, onipotente e onipresente, tal qual o slogan do Welfare State, uma vez que de fato induz ao progresso concreto da ciência médica e da pesquisa científica, traduzidos por resultados quantificáveis de longevidade humana e qualidade de vida. Se Freud aponta a sociedade e suas leis como fonte do mal-estar, afirma também que “a primeira exigência da civilização é a justiça, ou seja, a garantia de que uma lei, uma vez criada, não será violada em favor de um indivíduo.” Mas nos parece que não vê com clareza que o Estado, para além de se constituir como instituição judiciária criada pelo homem para a aplicação das leis, é também a garantia maior da igualdade dos homens perante estas mesmas leis, suas liberdades civis e políticas e, sobretudo, a da busca de sua felicidade. Embora deixe claro o seu credo cético liberal quanto à natureza do home homini lúpus hobesiano, Freud não toma partido no debate político que se travava entre conservadores e liberais ingleses, ou entre social-democratas e socialistas e comunistas europeus. Afirma taxativamente: “não estou interessado em nenhuma crítica econômica do sistema comunista; não posso investigar se a abolição da propriedade privada é conveniente ou vantajosa. Mas sou capaz de reconhecer que as premissas psicológicas em que o sistema se baseia são uma ilusão insustentável”. E conclui, questionando a premissa do socialista anarquista Proudhon: “a agressividade não foi criada pela propriedade”. Quando afirma que o homem civilizado vive o mal-estar de haver trocado a parcela de sua felicidade por segurança, quer afirmar que trocou a busca da felicidade pela segurança, como resultante da supremacia da pulsão de vida sobre a pulsão de morte. A civilização mesma se ergue sob o peso do sentimento de culpa de todos os mitos genealógicos. Não importa se pelo tabu de assassinato do pai despótico pelos irmãos em bando, se pelo roubo da chama do saber de Prometeu ou se pelo pecado original de ter comido do fruto da árvore do bem e do mal do paraíso judaico-cristão. O que importa é que a civilização resulta da severa introjeção do sentimento de culpa em superego contra o princípio do prazer que anima o ego. E a luta entre as forças da vida e da morte prosseguem sob novos pares de dualidades, como segurança e liberdade, hedonismo e ascetismo, egoísmo e altruísmo, que não deixam de ser uma evolução diante do maniqueísmo entre conservadores e progressistas, direita ou esquerda ou mesmo as forças do bem e do mal.

Sobre a obra acesse: http://www.imagoeditora.com.br/product_info.php?products_id=678
Veja um dos raros vídeos com gravação original da voz de Freud:
http://www.youtube.com/watch?v=WutYCooUvEQ
http://www.youtube.com/watch?v=o-UuyIXtRi0
E sobre a Inglaterra como exílio de Freud:
http://www.youtube.com/watch?v=vG9wCSrTbXs
http://www.youtube.com/watch?v=weYttywhYbs&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=Tymq5CefW-E&NR=1

Goya y Las Pinturas Negras


Goya y Las Pinturas Negras,
Valeriano Bozal, Museo Nacional del Prado, 2009

Esta série de pinturas, originalmente murais, decoraram a casa de Francisco de Goya (1746 – 1828) conhecida como Quinta Del Sordo e foram transpostas para tela pelo Barão Émile d´Erlanger que adquiriu a quinta em 1873 e as doou ao Museo Del Prado. Ficaram conhecidas pelo título de Las Pinturas Negras pelo uso recorrente de pigmentos negros, pelo próprio sombrio dos temas ligados à morte e os enigmas que a cercam. Todavia, são o auge de um antecipado expressionismo uma vez que, por se tratar de uma obra feita na intimidade de sua própria casa, o pintor deixa totalmente livre sua fértil imaginação. A ponto de os críticos se perderem num imenso e contraditório universo simbólico de interpretações as mais estapafúrdias. Resta apenas uma unanimidade sobre Las Pinturas Negras como um marco da modernidade estética e da superação do academicismo neoclássico e do romantismo idealista que dominavam a cena artística à época em que foram realizadas por Goya. A última das quatorze pinturas, a única em que não prevalece os tenebrosos fundos negros, O cão semi-afogado, foi descrita por Antonio Saura como v“uma das imagens mais belas do mundo”.

Depois de uma vida dedicada à pintura de câmara do rei Fernando VII, que se resumia a um retratismo oficial e repetitivo na sua falsa imponência, Goya se retira da vida de pintor oficial do rei para a mais livre e pura expressão de sua individualidade, sua visão de mundo libertária, anti-inquisitorial e anticlerical, denunciando com paixão e vigor o clima de violência e perseguição do Santo Ofício. Quando a crítica vai designar o movimento expressionista propriamente dito, fora da Alemanha no início do século XX, se refere a Goya avant-la-letre, no seu final de carreira a um século antes. São derivados dele, portanto, a escola expressionista alemã de Munch, Kirchner e Paul Klee, como os pós-impressionistas franceses Cèzane, Gauguin e Van Gogh, e até mesmo os expressionistas contemporâneos como Francis Bacon e Lucien Freud.

É neste período das duas primeiras décadas do século XIX, em que Goya se retira para executar Las Pinturas Negras, que chega à Espanha os ventos liberais das revoluções americana e francesa, tendo Fernando VII chegado a jurar e governar durante três anos sob uma constituição monárquico-parlamentarista (o chamado triênio liberal), a partir de 1820, quando se proliferam periódicos, manifestos e panfletos pregando as liberdades civis de crença, associação e de imprensa e denunciando os crimes da Inquisição.

Las Pinturas Negras, portanto, expressam com vigor e maestria este movimento de denúncia e catarse sobre até que ponto pode chegar a bestialidade humana. E, para além de artistas plásticos de todo o mundo, inspiraram cineastas como Milos Forman que em 2006 realizou um belíssimo filme sobre a vida de Francisco de Goya, que aqui mesmo nesta Agenda já foi resenhado.

Vale a pena revisitar em:

http://www.museodelprado.es/en
http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_de_Goya
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pinturas_negras
http://www.imdb.com/title/tt0455957/
http://www.avozdocidadao.com.br/detailAgendaCidadania.asp?ID=1071
http://wwws.warnerbros.es/goyasghost/

31 maio 2010


Citizenship, Richard Bellamy
A very short introduction, Oxford, 2008

O problema do desentendimento da cidadania não é exclusivo de nossa cultura. Mesmo na Inglaterra, onde se cunhou o termo desde a guerra civil de meados do século XVII, se multiplicam as dimensões éticas, morais, legais e sociais do conceito de cidadania em detrimento de sua essencial dimensão política. Também lá, como aqui, podemos dizer se tratar de um termo-ônibus onde cabe de tudo um pouco. Mas sua afirmação enquanto um conteúdo de engajamento e participação na vida política da sociedade contemporânea só tem a ficar cada dia mais claro. Até mesmo pelo surgimento dos fenômenos do multiculturalismo e da globalização. Num mundo onde coabitam mais de 5.000 culturas distintas, num espectro de 200 países territorialmente demarcados, 64% ou cerca de 120 países vivem sob o regime da democracia, onde a cidadania política desempenha um papel essencial. Apesar de o autor se referir ao conceito moderno de cidadania enquanto “titularidade de direitos e deveres”, ao mencionar a expressão universal de cidadania enquanto “direito de ter direitos”, não cita a autora Hannah Arendt. Mas afirma um paradoxo e enfoca uma cidadania essencialmente clássica em suas raízes liberais, como na excelente definição dos liberais de que o homem é o que é, ao contrário dos socialistas que definem o homem pelo que deveria ser. Poucos atentam para o indispensável complemento da máxima de Arendt que também afirma a cidadania como o dever de ter deveres, sobretudo o dever político de controlar os governantes para que seus direitos sejam garantidos de fato e não apenas de direito. Mas o paradoxo permanece no que se refere à motivação de participação quando a maioria dos cidadãos pagadores de impostos sabem que uma minoria “pega carona” em bens públicos de alcance geral como iluminação pública, saneamento, segurança pública, infraestrutura de transportes etc Portanto, para além dos deveres de pagar impostos, alistar-se na junta militar e eleitoral e prestar serviços eventuais à justiça e à defesa civil, é essencial à cidadania o exercício do controle social sobre mandatos, governos e orçamentos públicos. Embora cidadania tenha sido sempre definida enquanto status de igualdade perante a lei, desde o império romano, a partir do advento do welfare state tem-se desvirtuado para a noção de direitos humanos. Num regime de plena democracia, cidadania é: aquele indivíduo proprietário de seu próprio destino e de suas escolhas; aquele que divide deveres civis diante dos demais; que está sobre a proteção de leis de igual aplicação para todos os demais; e que exerce seus deveres políticos de fiscalizar os governantes para que nunca deixem de priorizar o interesse público. Tais direitos e deveres de cidadania são consagrados nos famosos Putney Debates, de 1647, quando em plena guerra civil inglesa, se especificam os princípios de um homem, um voto, dos direitos de expressão (através dos pamphleteers) e o direito de petição ao parlamento. A partir daí, a própria noção de cidadania supera a conquista de igualdade perante a lei para o protagonismo político diante dos governantes, o que os gregos denominavam como politès, os que superaram o estágio de idiotes que se preocupavam apenas com seus interesses privados.
Por conclusão, o autor estabelece como essência da citizenship a liberdade de escolhas do cidadão comum e, sobretudo, de sua capacidade de influir nas políticas públicas, ao contrário da guardianship, como a arrogância da tutela do cidadão pelos governantes.

Veja e compre no site oficial:
http://ukcatalogue.oup.com/product/academic/series/general/vsi/9780192802538.do?sortby=bookTitleAscend
Acesse o vídeo com o próprio autor:
http://www.meettheauthor.co.uk/bookbites/1745.html