01 setembro 2012

Na contramão da Avenida Brasil

É perturbador como a mídia de massa percebe o país. De um lado, dramáticos conflitos estão para se suceder nesta nova fase do julgamento do mensalão no STF. Onde baixaram os espíritos de Carminha e Nina se digladiando por entre as togas. Por outro lado, se a Avenida Brasil baixou no Supremo, não há a mais remota hipótese de que qualquer instituição judiciária, sequer uma delegacia de política, ou um promotor público, sequer um juiz de vara criminal, quanto mais o Supremo, venham a visitar o roteiro da novela-fenômeno do Ibope. Na fase das defesas a cobertura do “julgamento da história” andou fraca. Muito juridiquês para poucos tipos penais. Quando na passarela da Avenida Brasil desfilavam quase todos os tipos do Código Penal, do abandono de menor ao atentado a vida, roubo, estelionato, cárcere privado e até estupro.


O drama criado pelo noveleiro-sensação do momento, numa sucessão vertiginosa de embates de vingança, ódio e paixão, reserva para a classe emergente do subúrbio o papel de uma sociedade tribal, detentora apenas do código de Hamurabi das mais priscas eras, onde ainda não havia a instituição da justiça propriamente dita, e sim a da retaliação. E qual o saldo que fica no imaginário do cidadão comum? Se conquistamos nos últimos anos um sistema judiciário, que, apesar de todas as mazelas, está funcionando, temos um imaginário social projetado sem a menor sombra da justiça institucional, relegado à justiça selvagem dos que a fazem com as próprias mãos. Pois se a trama é eletrizante é justamente porque só dá conta dos sentimentos primários da barbárie, da selvageria da vingança e do salve-se quem puder.

A pena de Talião nos eletriza e nos paralisa. Como quando vemos uma vítima estraçalhada por um atropelamento na rodovia e suspiramos aliviados de que escapamos enfim de mais uma trama do destino. A retaliação é o estágio que nos cabe da justiça, o que foi dado ao povo brasileiro cultivar no seu imaginário, a experiência cotidiana da insuficiência das instituições jurídicas, a eloquência de sua ausência! Estas que são a verdadeira função do estado, em prover e distribuir a justiça pros cidadãos em troca do imposto que recolhe. E como o estado falha, a audiência se entrega de corpo e alma aos relatos das grandes vinganças e traições, das retaliações do olho por olho, dente por dente, anterior ao Código Mosaico, que é marco fundador de todos os valores da tradição judaico-cristã. Este é exatamente o salto civilizatório que não conseguimos dar. E, neste sentido, é eloquente o silêncio do autor do folhetim com relação à ausência de qualquer instituição no enredo puro de paixões as mais extremadas. Mesmo ‘Tropa de Elite’, que estourou a audiência há algum tempo atrás, pelo menos havia a polícia onipresente no lugar da ação de promotores e juízes. Mas nessa avenida de agora, não passa sequer uma viatura da polícia! Sequer um guardinha transeunte no alvoroço do centro comercial do Divino.

Mas afirmo: está longe de o Brasil caber nesta avenida, que se limita a uma luta selvagem de classes de patrão com empregado, de vilões endiabrados contra mocinhos quase sempre babacas, crédulos e cornos-mansos como Tufão, Jorginho, Adauto, Monalisa, Tessália e Ivana. Uma perversa redução dos valores da sociedade brasileira a cenas inverossímeis e grotescas, reforçando uma cultura ultrapassada de tolerância para com a impunidade e imoralidade que tem sido repudiada nos últimos anos. Ou cinco milhões de brasileiros lutando pela lei de iniciativa popular da Ficha Limpa, ou 20 milhões de cidadãos votando em ética na última eleição, é delírio? Só se for aos olhos míopes do autor. No plano do real, mesmo que ardendo na fogueira das vaidades togadas pela inflamável cobertura midiática, mesmo exarada a sentença final do julgamento do mensalão, ela não será o clímax, senão a conclusão de uma etapa do processo de lenta afirmação das instituições sobre a tradição de arbítrio dos donos do poder, nossos oligarcas e demagogos de sempre. Pois o show só pode acontecer depois da prévia e diligente “produção” de instituições como a Polícia Federal, a Receita Federal, o Tribunal de Contas, o Ministério Público, todos funcionando como a condição de possibilidade de funcionamento do próprio STF! Mas segue a novela de nossa marcha inexorável para um novo patamar de civilização, a despeito da limitação cultural de nossos produtores de entretenimento, nossos arquitetos de almas, noveleiros de imaginários tão eloquentes de audiência quanto ausentes de valores e instituições de que tanto carecemos. E fica o alerta: o Brasil é bem maior do que a avenida de mesmo nome! Fica também a aposta que no Supremo estamos aprendendo a condenar Rita, Carminha, Max, Leleco, Muricy, Silas, Nilo e tantos outros que fazem pouco de nosso povo, que querem nos convencer de que somos assim mesmo, cidadãos de segunda classe, sem ética política, sem moral definida, sem responsabilidade ou respeito por leis e pelos direitos do próximo, com o fatal traço cultural da carne fraca, dos que não jogam pedra em telhado de vizinho, dos omissos e licenciosos de sempre. Quem viver, verá!

11 agosto 2012

Fausto, o filme de Sokurov

Grande vencedor do Festival de Veneza 2011, o filme do diretor russo é uma transposição fidedigna para o cinema de uma das obras mais importantes da literatura mundial – o Fausto, de Goethe (1749-1832) e conclui sua tetralogia sobre o poder que parte de três personagens cruciais da história mundial: Hitler (em Moloch, de 1999), Lênin (em Taurus, de 2001) e o imperador japonês Hiroito (em O Sol, de 2005). A diferença é que a série se conclui, não com um personagem histórico real, mas com uma lenda, talvez o mais importante mito do poder político do século passado e um dos mitos mais frequentes do imaginário social ocidental. Poderíamos mesmo afirmar que a lenda de Fausto está na linha paradigmática dos grandes mitos clássicos de Adão, na tradição judaica, e Prometeu, na tradição grega. Extremamente pictórico, o filme também dialoga claramente com as pinturas de Bosch e Rembrandt, especialmente na cena do encontro entre Fausto e sua amada, Marguerite. Como admitiu o próprio Sokurov: “Sem dúvida alguma, as tradições e a estética de Rembrandt influenciaram a evocação visual em meu filme”. E não foi esta a primeira, como não será a última vez que a obra de Goethe é adaptada para o cinema, com destaque para Fausto do grande cineasta expressionista alemão, Friedrich Murnau, de 1926, La Beauté du Diable de René Clair, de 1950, Doctor Faustus de Richard Burton, de 1967, Faust de Jan Svankmajer, de 1994 e Faust: der Tragödie Erster Teil de Ingo J. Biermann, de 2009. Considerado a anunciação da modernidade, a lenda de Fausto se espalhou a partir do iluminismo alemão por todas as culturas europeias. No intuito de compilar tudo quanto se acreditava e se dizia acerca de Fausto, Johann Spiess, livreiro e escritor de Frankfurt, compôs no ano de 1587 a primeira narrativa literária dessa personagem. Era um volume de 227 páginas, intitulado como a Historia von dr. Johann Fausten, cujo enredo contava como ele se vendeu ao diabo a prazo estipulado, as extraordinárias aventuras que viveu nesse ínterim, a magia que praticava, e por fim sua danação e morte. Tudo isso publicado para servir de advertência sincera contra os que levavam a curiosidade intelectual além do limite estabelecido pela Igreja. Muitos críticos e estudiosos avaliam esse primeiro romance faustiano, ou Faustbuch, como passou a ser conhecido, como mera propaganda luterana para doutrinação e proselitismo, o que significa a um só tempo uma poderosa alegoria sobre a soberba humana em face do conhecimento e a necessidade de se impor um limite com o advento da Santa Inquisição. Dois anos depois da publicação de Spiess, ou seja em 1589, o escritor e dramaturgo inglês Christopher Marlowe (1563-1593) transforma Fausto em peça teatral, onde sutilmente retrata o dilema do novo homem ocidental, então dividido entre a religiosidade medieval e o humanismo renascentista. Este texto será base, por exemplo, de versões de roteiros cinematográficos como os de Richard Burton, de 1967. Quase dois séculos depois, no ano de 1760, foi a vez do escritor alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) criar uma nova versão dramática do Fausto, na qual ele encarnaria o heroísmo do intelecto humano, capaz por si mesmo de triunfar sobre o mal, personificado no diabo. A obra de Lessing, porém, hoje encontra-se fragmentada. Sendo um arquétipo da alma humana, o mito de Fausto jamais se esgotou simbólica e literariamente, de modo que diversos artistas contemporâneos e posteriores a Goethe reagiram criativamente à personagem. O poeta russo Puchkin escreveu em 1826 um Fausto notável pelo diálogo com Mefistófeles. Christian Dietrich Grabbe também compôs em 1836 uma tragédia onde confrontava Don Juan e Fausto. No século XX, o poeta francês Paul Valéry escreveu a peça Mon Faust, sem todavia a concluir. Depois foi a vez do poeta português Fernando Pessoa escrever Fausto: Uma Tragédia Subjectiva, inusitadamente narrado na primeira pessoa. E por fim, Thomas Mann publicou seu romance Doktor Faustus em 1947. Para o crítico brasileiro Nivaldo Cordeiro, ninguém melhor que Thomas Mann fez a crônica e interpretou melhor o fenômeno do totalitarismo nazista. Discípulo e continuador da obra de Goethe, Mann conseguiu no livro Doktor Faustus juntar as partes do quebra-cabeça: o mito do Fausto, a filosofia da rebelião contra Deus, fundada no Iluminismo, o satanismo militante e o niilismo tão bem retratado na filosofia de Nietzsche. Tudo costurado numa trama que relata a ascensão e a queda do nazismo. Para além de ser também uma obra autobiográfica, que relata a ruptura espiritual de Thomas Mann com esse caldo de cultura satânico da modernidade. Mann terá sido o primeiro exilado, o alemão exemplar, que jamais se iludiu com o populismo nazista. O anti-Goethe e, ao mesmo tempo, o maior dos seus discípulos. Ele sempre soube que Hitler, mais que um fenômeno político, encarnava um problema espiritual. Dentro dos meios civis, foi Thomas Mann aquele que impôs a mais severa oposição ao nazismo, o que mais agiu e o que mais sofreu as consequências de um exilado. Recentemente, em 2008, o escritor português Rafael Dionísio lançou os seus "Cadernos de Fausto" revisitando também este mito. Fausto também foi tema para as peças musicais de vários compositores clássicos como Wagner (Faust), Berlioz (La Damnation de Faust), Schumann (Szenen aus Goethes Faust), Liszt (Faust-Symphonie) e Gounod (Faust). Ainda na música Fausto de Goethe serviu de inspiração para dois álbuns, Epica e The Black Halo, da banda de Metal Melódico Kamelot, e para três álbuns, The Scarecrow, The Wicked Symphony e Angel Of Babylon do projeto de Power Metal Avantasia, onde o compositor Tobias Sammet cria sua própria versão da Lenda de Fausto através de canções. Ainda na chamada "Cultura Pop", o escritor de quadrinhos Alan Moore traz em sua premiada obra "Promethea" (1999) uma versão de Fausto, baseado livremente na lenda original. O livro O Fantasma da Ópera (Gaston Leroux) apresenta a ópera Fausto, de Charles Gounod, no momento em que Erik sequestra Christine. Trata-se, enfim, de uma lenda, quase um mito, com o qual podemos refletir sobre a condição humana e os próprios fundamentos e valores da humanidade, o que não é absolutamente corriqueiro na cultura ocidental. Veja matéria de imprensa sobre o filme: http://globotv.globo.com/globo-news/globo-news-literatura/ v/livro-fausto-de-goethe-ganha-nova-adpatacao-para-o-cinema/2051479/ Veja o Fausto de Murnau de 1926: http://www.youtube.com/watch?v=hQ7_OwQRU-M Acesse um estudo sobre a obra de Goethe http://www.fraternidaderosacruz.org/am_fausto_de_goethe.pdf Acesse uma crítica sobre o Dr Fausto de Thommas Mann: http://www.nivaldocordeiro.net/ Acesse um ensaio sobre Fausto: http://uerj.academia.edu/KaioFelipe/Papers/1787855/A_ Bildung_Demoniaca_Doutor_Fausto_e_a_Crise_Cultural_da_Alemanha_no_Entreguerras Para assistir o trailer do filme em questão: http://www.youtube.com/watch?v=PlXgjnU83S8 9/8/2012

14 julho 2012

Habemus Papam, de Nanni Moretti

Com Michel Piccoli no papel principal, o seu desempenho é um espetáculo à parte. Mas a escolha do argumento do mesmo Nanni Moretti é surreal e de fino senso estético, daqueles que enfrentam as grandes questões existenciais com a leveza da ironia e do humor. Conduzem o espectador pelo caminho fácil de uma comédia ao sítio insuspeitável dos grandes dramas. Poderíamos dizer que o roteiro trata de uma paródia crítica sobre o distanciamento da Igreja católica de seus fiéis pelo sigilo interno e o peso de seus rituais e tradições, pela natureza de seu poder celeste e terreno, mas não se esgota aí. Como também não se esgota numa paródia elegíaca do drama A Gaivota de Tchekov, uma vez que o candidato a papa foi um ator fracassado e conhece como ninguém o sentimento paralisante do medo de entrar em cena. Poderíamos dizer que se trata de uma grande alegoria sobre o poder político mal dividido entre as regiões do planeta, mas também não se esgota aí o roteiro. Como ateu assumido, o diretor mais celebrado da Itália contemporânea ousa uma paródia sobre a crise da própria fé religiosa. Encarna a figura inusitada de um psicanalista para tratar, não apenas do papa eleito pelos seus pares pela vontade de Deus e em total crise de pânico diante da imensa responsabilidade de se tornar objeto da fé de milhões de fiéis, mas a própria irracionalidade da fé contemporânea persistindo de maneira ridícula numa humanidade que já perdeu a centralidade do universo com Copérnico, a imagem da semelhança divina com Darwin e a própria certeza de autodeterminação com o próprio Freud. Neste sentido, o filme ousa o questionamento do próprio poder político diante de massas de fiéis desprovidos de cidadania e autogoverno. Mas o processo humano de escolha desta figura paterna representante de Deus na terra, esteio e enlevo do desamparo intrínseco da natureza humana, é o mesmo de uma encenação teatral, onde se estabelece o conflito ou o conclave entre os que disputam o papel principal, em meio a outros tantos que, longe desta função, preferem permanecer no conforto do anonimato sem maiores responsabilidades ou expectativas de tantos espectadores. A escolha, que nesses casos cai sobre uma figura neutra, como estratégia de não se escolher um único vencedor, corresponde à própria falência da figura do pai, o que nos leva todos à miserável condição humana de orfandade, tema fundacional da própria psicanálise. Pelo menos é esta a aposta dramática do diretor espelhando-se em Tchekov e para além da comédia cotidiana do filme. Veja o trailer oficial: http://www.youtube.com/watch?v=Mr8O687r-60

07 junho 2012

O valor das instituições

Por Jorge Maranhão Publicado no jornal O Globo em 05/06/2012 A propósito deste imbroglioentre o ex-presidente Lula, o ministro Gilmar Mendes e o ex-presidente do STF Nelson Jobim, acho quemuito se falou, mas pouco se disse sobre o que está por trás do mesmo: o desconhecimento do papel e do valor das instituições para a democracia. Em especial das instituições de Estado, que existem mais para servir aos interesses do bem comum do que a governantes e políticos da ocasião. Chamam o ex-presidente de apedeuta, mas o que esperar de um líder sindical que vira líder político exatamente no vácuo da omissão política da mais fina flor de nossas elites sociais? Quando ninguém da assessoria do ex-presidente –a começar pelo experiente Nelson Jobim –se aproximou para alertá-lo sobre alguns conceitos básicos da república, como o próprio Artigo 2º da Constituição Cidadã, que define os três Poderes da União como independentes e harmônicos entre si. Ou outro conceito mais fundamental ainda, como o de “instituições”, definido como o “conjunto de normas previsíveis e acumuladas pela experiência ao longo do tempo, visando orientar a conduta de seus membros diante da expectativa da sociedade e das organizações”. Ninguém para frear o ímpeto voluntarista de Lula para lembrá-lo que, entre as instituições de Estado, as instituições jurídicassão a própria garantia do estado de direito democrático, criadas exatamente para defender todo cidadão contra qualquer tentativa de coerção ou intimidação por parte dos governantes. Sobre o valor das instituições, aliás, o economista prêmio Nobel de 1992, Douglass North, observou ainda nos anos 80, num estudo sobre oscustos das transações:“a liberdade, a igualdade e a democracia só sobrevivem com base no poder controlado. A função principal das instituições é ajustar os limites da igualdade aos limites da liberdade. Liberdade e igualdade são preservadas como bens comuns na razão direta da eficiência das instituições”.Como há 150 anos atrás, escrevendo sobre as instituições da república americana, Alexis de Tocqueville ressaltava os princípios da impessoalidade e da moralidade como sua própria razão de ser. Mas nossos comentaristas políticos da imprensa mais abalizada falam até em crime de coerção e que a conduta de Lula foi um tiro no pé, e não aproveitam o episódio para relevar o sentido do artigo 37 da CF: “A administração pública de qualquer dos Poderes da União obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”. O que se fundamenta outra vez no conceito de instituição como a concretização dessa impessoalidade da coisa pública e até como o próprio ambiente de segurança jurídica e de previsibilidade da jurisprudência, estas, sim, que nos faltam para o aumento dos investimentos e do progresso econômico e social. Jorge Maranhão é diretor do Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão. Email: jorge@avozdocidadao.com.br

30 abril 2012

Pina, de Wim Wenders O plano era outro. Wim Wenders tinha em mente a ideia de registrar em 3D os ensaios da Tanztheater Wuppertal, a icônica companhia da bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch. A morte inesperada de sua fundadora e diretora, em junho de 2009, mudou os rumos do projeto. Após um período de luto e reflexão, em que cogitou cancelar tudo, o cineasta percebeu que era possível repaginar o trabalho: não seria mais um filme com Pina Bausch ou sobre Pina Bausch, mas um filme para Pina Bausch. Assim nasceu este magnífico documentário com emocionantes testemunhos de todos os membros de sua companhia, vindos de todas as partes do mundo, não importando tipo físico, países, culturas ou mesmo conhecimento e técnica de dança ou coreografia. A partir deste documentário, todos podemos ver concretamente a diferença fundamental entre ballet, como expressão da dança barroca, clássica e romântica, e a dança enquanto criação a mais radicalmente transformada pelos gritos da modernidade. Não há companhia de dança contemporânea que não tenha se inspirado na obra da grande coreógrafa alemã. Seja como expressão da dor e do sofrimento humano, seja como exteriorização da alegria de viver. Não há número na Tanztheater Wuppertal que não contagie o expectador de imediata sensação de humanidade, humildade mesmo, quando somos reduzidos à concretude de nossos corpos, matéria que quase nada pode, mesmo diante do desejo da mais cotidiana subjetividade. Chega a ser cómico uma grande artista alemã trazer para a limitação das possibilidades de nossos movimentos físicos o que sempre sonhamos de utopia pela ilusão de nossos desejos. É como se a artista fosse o último comentário humano sobre toda a retumbante trajetória da civilização germânica. Vá ver correndo ou dançando este extraordinário documentário e também o site oficial da coreógrafa, assim como alguns posts imperdíveis da internet: http://www.pina-bausch.de/en/pina_bausch/index.php http://www.youtube.com/watch?v=R-J1FXg-awA&feature=player_embedded http://www.youtube.com/watch?v=Jm70fMM3JAk http://www.youtube.com/watch?v=KXVuVQuMvgA http://www.youtube.com/watch?v=OjutwwRk1E0&feature=related http://www.youtube.com/watch?v=o8VGxwjtlQ4&feature=related

30 março 2012


Cineasta foi o mestre inventor dos efeitos especiais no cinema

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, EUA, 2011), de Martin Scorsese

Na Paris da década de 30, Hugo acaba de ficar órfão. Ele descobre que o robô deixado para ele por seu pai esconde um mistério. Com a ajuda de uma nova amiga, o menino viverá uma incrível aventura. Este é o argumento manifesto como uma aventura infanto-juvenil. O argumento subjacente não se dirige aos jovens. Trata-se de uma apologia ao próprio cinema com uma particular homenagem, quase um documentário, sobre um dos precursores da sétima arte e talvez o mais injustiçado pela competitividade humana: Georges Meliés, sucessor dos irmãos Lumière e mestre inventor dos efeitos especiais.

Quem pensa que o primeiro filme a cores foi ... E o Vento Levou, pode ficar chocado e deveras intrigado com O Reino das Fadas (Le Royaume des Fées, 1903), O Caldeirão Infernal (Le Chaudron Infernal, 1903) ou O Inquilino Diabólico (Le Locataire Diabolique,1909). Sem falar na sua grande obra-prima: Viagem à Lua (Le Voyage Dans La Lune), 1902. Como não poderia faltar ao pai da ficção científica, Méliès reproduz, através da nova tecnologia, um romance do sublime visionário Júlio Verne. Mas quem se faz gênio nem sempre morre reconhecido como tal. Sua companhia de filmes, a Star Films, foi considerada, por algum tempo, como referência mundial em cinema. Mas concorrentes foram surgindo e o cinema amadurecendo. E surge Griffith e a Pathé, concorrência forte demais para um ilusionista que trabalhava artesanalmente. É de se frisar que a nova linguagem do cinema é a essência do espirito romântico da arte como evasão da realidade e busca de outro tempo que não o insuportável presente. Para além do que, os temas futuristas que incensavam a imaginação dos artistas do cinema e das artes, passaram a não ter mais apelo diante das imagens realistas sobre a morbidez da primeira grande guerra, a primeira na verdade filmada e fotograficamente documentada, colocando o homem diante do horror que ele próprio jamais pode imaginar que fosse capaz de perpetrar.

Martin Scorsese faz um filme para recontar a própria história do filme e corrigir esta injustiça de ter sido colocado no ostracismo uma figura singular da história do cinema. Meliès ainda era vivo quando Hugo Cabret, filho de seu relojoeiro, conseguiu recuperar o autômato, decifrou sua mensagem enigmática e lhe devolveu o autômato. Se hoje a técnica cinematográfica não tem limites, ela serve mais às superproduções fantásticas de guerras nas estrelas do que a argumentos tão singelos como o resgate de um artistas inovador como Meliès. E trazê-lo de volta ao presente como forma de provar a capacidade profética dos grandes artistas como verdadeiras antenas do futuro. Para além de todos os recursos do 3D como os que Scorsese faz questão de usar, é de se notar a beleza da reconstituição de Paris de época com uma locação numa das estações de trem que, por ironia da história, lembra o Quai d'Orsay de hoje em dia, inclusive com seu grande relógio intacto, transformado num dos mais prestigiados museus da arte impressionista francesa.

Vale a pena conferir o filme original de Meliès em:
http://www.youtube.com/watch?v=7JDaOOw0MEE&feature=youtube_gdata_player

Veja o trailer oficial dublado:
http://www.youtube.com/watch?v=QBLsVTJlAqo&feature=youtube_gdata_player

07 fevereiro 2012


O brado retumbante, minissérie da TV Globo, de Euclydes Marinho

Apesar de certa discussão sobre o realismo fantástico ou do ficcionismo realista, isto tem muito pouca importância quando estamos a avaliar um produto de comunicação televisiva. Diria mesmo que a flexibilidade entre estas fronteiras é o que importa e o que traz a verdadeira natureza da linguagem televisiva. Já houve quem dissesse que se alguém quiser conhecer o imaginário social e politico brasileiro, que veja os telejornais. E se quiserem conhecer a realidade da cultura política nacional que se liguem nas telenovelas, ou mesmo nos programas humorísticos, com larga tradição de sarcasmo político. O que importa é que esta 76ª minissérie da Tv Globo “O brado retumbante” é a mais ousada narrativa sobre os costumes políticos brasileiros dos últimos anos. A ponto de animar debates acalorados sobre que políticos de nossa vida recente inspiraram os principais personagens. Quem seria Paulo Ventura? Uma mistura de Fernando Collor, Itamar, Lula? E o senador Nicodemo Cabral, com este nome de sabor nortista-nordestino? Seria Sarney, Antonio Carlos Magalhães, Edson Lobão? E a ala de deputados corruptos que nem inspiração precisa de tão diversa zoologia? Para não falar na ampla gama de questões de nossa recente pauta política que inspiraram com realismo desconcertante as falas dos personagens. O jovem político que é amante da mulher de um outro político. Um presidente por acaso, independente de corriolas partidárias, que resolve comprar uma briga heróica contra as quadrilhas de corruptos. As manobras para derrubá-lo, com atentados e votações de impeachement; o congresso que não vota a reforma política; a crise militar na fronteira de um país sulamericano dirigido por um general ditador; a nova lei de responsabilidade pública que pretende dobrar as penas contra a improbidade administrativa; a marquetagem das campanhas eleitorais; o genro aproveitador; o tio delinquente e vendido ao tráfego de influência; a mãe inconveniente; os desvios hediondos dos orçamentos da saúde e da educação públicas; as denúncias contra a manipulação ideológica dos conteúdos dos livros didáticos; a onda de ongs picaretas; a reação das centrais sindicais às políticas de cortes de déficits públicos; a demagogia de congressistas que vendem apoios e não votam leis necessárias, mas apenas casuísticas. Isto é tudo ficção ou pura realidade?

Como já dissemos, não importa. O que importa é a maior rede de televisão aberta brasileira se debruçar sobre o tema. Uma vez que as demais instituições reprodutoras de valores morais estão a falhar na sua outrora nobre missão, como os sistemas de educação pública e do judiciário do estado. Uma vez que instituições mais antigas com esta função não estão dando conta. A família por uma crise de restruturação como nunca passou nestes mais de tres milênios de existência. As igrejas por uma crise de valores e de credibilidade que as jogam na mesma vala comum da política partidária, na disputa comercial e pelo controle de fundos pecuniários, além da conduta imoral de alguns de seus sacerdotes. As empresas, pela ganância global, não tem mais espaço para enxergarem um pouco mais além do próximo balanço, em prejuízo direto da sustentabilidade na própria vida na terra.

Neste contexto dantesco, a ação política tenderia a ser cada dia mais negada ou inibida, senão completamente omissa, não fosse a indignação dos mais jovens e esta sempinterna esperança cultural brasileira. Não fosse também o ar de liberdade que se respira e o concurso da tecnologia da informática que tende a transformar radicalmente a ação política tal qual se concebe hoje em dia. Se estas possibilidades são reais, como o feliz desfecho de nosso herói, que decide permanecer na trincheira da luta, ficção mesmo, nesta mesma vida real, é a possibilidade de sair vitorioso de tantas batalhas, tamanha a mediocridade de instituições de estado como o judiciário e a própria polícia, como temos testemunhado nos mais recentes episódios de nossa história política.

Mais vale muito a pena continuar apostando na mídia como um fator decisivo de mudança de nossos lamentáveis costumes políticos.

Para ver mais, acessem:
http://redeglobo.globo.com/o-brado-retumbante/cobertura/