31 julho 2011

A infantilização do cidadão brasileiro



Tá certo que a raça humana não chegará à força de um quadrúpede qualquer que, mal ejetado do útero materno para o pó da terra, levanta-se imediata e desajeitadamente para cambalear os primeiros passos. Daí para o galope é questão de horas. Enquanto nós, os bípedes ditos superiores, permanecemos por meses mamando nas tetas maternas, quando não pelo resto da vida, no concreto dos derivados do leite ou no figurativo da adoração de um deus qualquer em troca da promessa de retorno ao paraíso. O que corresponde no mundo mesquinho da política à servidão do oligarca da vez em troca de uma providencial sinecura. O fato é que a natureza humana é tão vil quanto à de qualquer mamífero do reino animal. E entregamos a dignidade de nossa liberdade à primeira ameaça à nossa segurança. Como se o Leviatã que nos prometeu a paz não acabasse sendo o mesmo a nos devolver ao estado do medo original.

Não acredito no mundo de hoje na perenidade e estabilidade de estados fortes a ponto de infantilizar os cidadãos. Aliás, não acredito que sejam realmente cidadãos os que se deixam infantilizar. Há que se distinguir com urgência nas democracias emergentes as diferentes funções dos governantes e das instituições de estado. O estado absolutista morreu na guilhotina. Mas muito antes dele se construía, no mundo da cultura saxã, o estado como limite institucional ao poder monárquico inglês e o estado republicano promotor de justiça e cidadania americano. Há que se entender definitivamente que o verdadeiro inimigo da democracia, longe de ser a tirania contra qual lutamos toda nossa geração, é na verdade a demagogia sem rosto de uma cultura política miserável de clientelismo, patrimonialismo e impunidade. E se governantes demagogos persistem na infantilização do povo, é por que nós, os cidadãos formadores de opinião, pagadores de impostos, eleitores e consumidores assim permitimos. Por que, como dizia o grande historiador inglês Arnold Toynbee: "O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam".

A questão nas democracias emergentes é que as elites abdicaram de construir as instituições do estado democrático, em troca das benesses dos governantes, sem a visão histórica de que acabarão como joguetes dos interesses políticos dos mesmos. Se não, consultem a história! Quais empresas conseguiram perdurar ajoelhando aos pés dos demagogos? Há, no entanto, quem postule que vivemos numa ordem econômica de capitalismo de estado quando isto se trata de uma contradição em termos. Assim como os políticos acham que as instituições do estado são meras dependências de seus partidos. Assim como o estado na verdade é feito de instituições republicanas a serviço dos cidadãos que lhes sustentam, os partidos políticos nada mais são do que instrumentos de exercício do poder político temporário e jamais hegemônico por exigência da própria democracia. Se partidos assaltam o estado é em conivência com grupos econômicos que assaltam o tesouro público e financiam as campanhas políticas de seus governantes. O déficit público é a imagem refletida no espelho do déficit de cidadania. Por que cidadania não é solidariedade, filantropia, sequer urbanidade nem civilidade apenas. Cidadania é controle social sobre mandatos de governos e a fiscalização da melhor aplicação dos recursos públicos e dos orçamentos. A reforma política é o divisor de águas entre a nossa farsa de representação política, uma demagogia barata de direitos sociais ilimitados, e uma cultura política de qualidade, republicana e de pleno respeito aos cidadãos eleitores e pagadores de impostos.

Eu que não sou economista, já pedi inúmeras vezes a amigos economistas: me provem matematicamente que o estado brasileiro é deficitário e me apresentem o total de todas as chamadas contas subsídios: não apenas as bolsas assistenciais, que estas são trocado, mas as contas de todos os subsídios, isenções tributárias, incentivos e benefícios fiscais, fora os custos do tesouro para a capitalização de empresas estatais como Petrobras e bancos como o BNDES que, por sua vez, vão contratar e financiar os grandes grupos empresariais "vencedores" - leia-se financiadores das campanhas de políticos demagogos. Ou alguém me diga que democracias fortes e estáveis foram construídas no ocidente sem o concurso de verdadeiros empreendedores de visão histórica e preocupados em financiar o desenvolvimento das instituições de estado e das organizações da sociedade civil que lhes garantem autonomia e estabilidade. Pois a história do capitalismo, graças ao niilismo do pensamento liberal e o otimismo de sua ação política, é mais cheia de empreendedores que deram limites a governantes corruptos do que de governantes que destruíram empresas independentes de seus favores. A esmagadora maioria dos empreendedores brasileiros é feita deste DNA até por que vivem da competição do mercado aberto. Basta apenas se entenderem enquanto cidadãos adultos e livres de quaisquer demagogias e escolherem em que lado vão apostar no futuro do país. Pois, como já se disse, não há como prosperar seus negócios numa sociedade politicamente fracassada.

Publicado originalmente no Diário de Comércio de São Paulo, 5/julho/2011

25 junho 2011

Ideias politicas da era romântica


Ascensão e influência no pensamento moderno, de Isaiah Berlin
Cia. das Letras, São Paulo, 2009

Este livro surgiu da compilação das notas de seis conferências que Berlin deu numa universidade da Pensilvânia em 1952. A partir de seu livro central sobre os conceitos de liberdade, este exame das ideias politicas da era romântica procura investigar historicamente as teses do primeiro. É quando o pensamento do grande filósofo politico britânico de origem letã esgota definitivamente o conceito politico da liberdade, como valor intrínseco ao que se entende como a própria humanidade. Ou a própria dignidade humana quando questiona por que deveria um homem obedecer a outro homem. É exatamente no período romântico de 1760 a 1830 que se formulam as principais teorias sobre a liberdade em pensadores como Kant, Helvetius, Holbach, Rousseau, Fichte, Vico, Herder, Hegel, Saint Simon, Fourier e Maistre, pelos quais Berlin passeia para extrair a essência de suas teorias politicas. A liberdade negativa dos liberais clássicos, entendida como não-interferência, Berlin acrescenta a liberdade positiva da autodeterminação e de escolha do cidadão. Ou seja, o ideal da liberty só se alcança pela luta contra a dominação política, pela via da freedom que se opõe ao kingdom. Outro dado fundamental sobre a liberdade como valor intrínseco da humanidade é que sem ela o homem não pode ser considerado um ente moral, como viria a pensar Kant a partir do conceito de imperativo categórico, pois sua escolha pela boa ou má conduta já pressupõe obrigatoriamente a liberdade de escolha e sua responsabilidade sobre a mesma, o chamado livre arbítrio. Se a liberdade é um conceito civil de não interferência no direito de escolha do outro, é essencialmente um conceito romântico, segundo Berlin, assim como a liberdade enquanto freedom é um conceito político e liberal de afirmação deste mesmo direito, o que implica na luta politica de limitar o poder dos governantes pela eficácia das leis e das instituições politicas. Se a primeira é liberdade negativa de não-interferência, a segunda é positiva no sentido politico de liberdade contra. Por que, como já prescrevia Locke, mesmo antes da era romântica, o homem não pode abrir mão de seus diretos mais fundamentais como a vida, a segurança, a liberdade e a propriedade, sob o risco de desumanizar-se. Daí o dever do engajamento politico. Ou seja: não se é verdadeiramente livre quando ninguém não o impede de ser (liberty), mas quando se luta pelo direito político (freedom) de escolher entre condutas a que mais lhe aprouver. Se a liberdade romântica é essencialmente estética, não obedecer ou se submeter a um cânone, gosto ou ordem de valores, a liberdade clássica é essencialmente politica, não obedecer ou se submeter à vontade de outrem ou mesmo de uma lei injusta.
Veja mais em: http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12393
http://www.youtube.com/watch?v=84wJlDC8--o
http://www.youtube.com/watch?v=8z1buym2xUM&NR=1

29 maio 2011

O empresário como cidadão civilizador


De nada adianta um empresário se achar um cidadão do mundo, produtor e consumidor consciente, ou mesmo cidadão eleitor consciente, ou pagador de impostos consciente, se não se tornar um cidadão civilizador no país que lhe deu a cidadania! Ou seja, um cidadão engajado na missão de formar politicamente outros cidadãos. Que se disponha a quebrar este ciclo vicioso da cultura de impunidade brasileira que não distingue público de privado e substitui o contrato de participação social pelo contrato de omissão, alimentando o perverso contrato social do "macaco que tem rabo de palha não toca fogo no rabo do outro". Quando a plena cidadania resulta num contrato virtuoso e de aceitação espontânea: se no âmbito do espaço público todos podemos ser vigiados por todos, é melhor que tomemos a iniciativa de vigiar também, para que não sejamos apenas vigiados.
Pois a plena cidadania é assumir o público como seu também, com participação social, e sobretudo política e civil! É quando você, para além de civilizado, se torna um cidadão civilizador de outros cidadãos! Para isso é que as instituições do estado foram feitas: para serem mais usadas pelos cidadãos moradores, produtores e consumidores, eleitores e pagadores de impostos, do que pelos governantes e políticos de ocasião!
Defenda-as e use-as, mas acima de tudo ensine a outro cidadão a
defendê-las e as usar plenamente. Elas se compõem apenas de dez instituições ou sistemas institucionais, que traduzem a verdadeira missão do estado de garantir os direitos e exigir os deveres de todos os cidadãos que devem ser iguais diante das leis, para que tenham a liberdade de buscar sua felicidade, suas propriedades e se desigualarem social e econômicamente na proporção de seus próprios méritos.
Desconhecê-las e não defendê-las é permitir que o estado exorbite de sua missão ontológica de produzir e distribuir justiça, segurança e oportunidades de vida, garantindo a busca da felicidade e propriedade, bem como o cumprimento dos contratos. É permitir que o estado entre no mercado e se torne o grande empreendedor que, tal qual a alegoria do Leviatã, acabará por asfixiar todos os cidadãos, principalmente aqueles que mantêm uma relação promíscua com ele. Da justiça federal e tribunais de justiça estaduais, o CNJ e as corregedorias dos tribunais, do ministério público federal e estaduais, o CNMP e suas corregedorias, da AGU e suas ouvidorias; até as agências reguladoras e suas ouvidorias, as assembléias legislativas estaduais e o congresso nacional, e os órgãos de controle interno (CGU) e controladorias estaduais, bem como os de controle externo como os tribunais de contas da União e os estaduais; até o sistema de defesa nacional composto pelas forças armadas e as polícias civil e militar e as receitas federal e estaduais. Poderíamos ainda acrescentar o executivo federal e seus órgãos de gestão interna e externa, como a chancelaria, e alguns poucos ministérios efetivamente responsáveis pela condução das políticas públicas aprovadas pelo parlamento, mas jamais uma penca de ministérios formados apenas para dar guarida a correligionários políticos, emprego para apaniguados e usurpar as funções de formulação de políticas públicas e legislativa que devem ser cativas do parlamento.
Mas jamais podemos nos cumpliciar e, mais do que isso, nos locupletar do oportunismo fácil de um estado empresário e perdulário. Que inevitavelmente produzirá bens e prestará serviços mais caros e com menor qualidade do que os verdadeiros empresários da vida privada. E perversamente desperdiçará os recursos públicos que deveriam favorecer igualdade de oportunidades de uma educação e saúde públicas de qualidade para todos os cidadãos, favorecer uma arbitragem judicial para fazer a lei ser cumprida para todos os cidadãos de forma acessível e rápida, garantindo de fato os direitos fundamentais à vida e à segurança, às liberdades civis, às propriedades do corpo, da mente e dos bens materiais havidos com o esforço de seu trabalho, garantindo, enfim, que o próprio estado sirva mais aos cidadãos que lhe sustentam do que aos governantes de plantão e associados que dele se servem inescrupulosamente. Não há na história da humanidade um precedente sequer que dê conta do advento e ascensão de uma civilização sem que dela tenham sido seus promotores as elites mercantis, industriais e financeiras, verdadeiros cidadãos civilizadores. O que resultará em barbárie, violência social e violação legal, em decadência e na selvageria de todos contra todos.
Ainda é tempo no Brasil dessa gente refinada mostrar seu valor!

http://www.youtube.com/watch?v=06aMC17v18o&feature=player_embedded

30 abril 2011

Cidadômetro e o déficit de atuação do cidadão


Um dos pontos pelo qual mais nos batemos nos programas de mídia, de internet, de educação corporativa, de consultoria e de edição de materiais de nosso Instituto é o entendimento e difusão do que chamamos da verdadeira ou plena cidadania. E sobretudo no que isso implica numa tomada de atitude política pelos cidadãos: mais do que solidariedade e civilidade, consciência de direitos e deveres, cidadania implica numa conduta de participação política e controle social sobre governantes, mandatos, orçamentos e desempenho das instituições. Afinal, se somos principalmente cidadãos eleitores e pagadores de impostos, temos um dever de protagonismo perante o resto da sociedade. Trocando em miúdos, temos o dever de agir pelo bom uso dos recursos públicos, sempre através do bom uso das instituições de Estado, que devem estar mais a serviço dos cidadãos do que dos governantes de ocasião, assim como temos também o dever de procurar engajar outros cidadãos nessa conduta de participação política.
Neste momento é que cabe a pergunta sobre o tamanho desse déficit de engajamento da cidadania. E em princípio podemos afirmar que é do tamanho do déficit público do país! E vai perdurar até quando não compreendermos que não podemos mais nos limitar a sermos apenas solidárias ou apenas conscientes de seu papel? Quantos de nós temos o exato entendimento de que é preciso atuar, e não apenas observar, ainda que criticamente?
Pensando nisso, A Voz do Cidadão está lançando no âmbito do espaço público o seu Cidadômetro, no posto 10 da praia de Ipanema, Rio de Janeiro, como um contraponto do famoso Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo.
Através de uma viatura equipada com um megafone, vamos convidar o cidadão a participar das enquetes que vão medir o grau de atuação de cidadania daquela região, bairro ou localidade. E a partir dos três graus: os cidadãos solidários, os cidadãos conscientes e os cidadãos atuantes, computando os votos em um sinalizador que ficará no alto do veículo, para acompanhamento de todos.
Nesse primeiro momento, a ideia é acompanhar as pautas da imprensa para chamar a atenção do cidadão para a ocupação do espaço público. Ele vai votar, ser levado à reflexão, checar o resultado da enquete e eventualmente poderá registrar seu depoimento para servir de estímulo a outros cidadãos. Caso se proponha a atuar de fato junto a seus familiares, colegas e conhecidos, pode ainda escolher um de nossos panfletos sobre cultura de cidadania de uma coleção de mais de 50 edições temáticas. Além de avaliar o grau de atuação de cidadania através de perguntas, o Cidadômetro vai procurar transmitir valores, ao fazer o indivíduo refletir sobre consciência política, os conceitos de público e de privado, de propriedade, de liberdade, de estado e de governos e, principalmente, do que seja a ação política.
Começaremos na zona sul do Rio de Janeiro, na orla da praia fechada para o lazer dos transeuntes aos domingos, mas podemos seguir por toda a cidade e até mesmo levar o Cidadômetro para outros estados. Tudo depende de patrocinadores, que preferimos que sejam empresas e entidades privadas. Pois não há registro na história do capitalismo, graças ao niilismo do pensamento liberal e o otimismo de sua ação política, de empresas bem sucedidas em sociedades fracassadas, tampouco de empreendedores que não deram limites a governantes corruptos, quando o contrário, o de que governantes podem destruir empresas independentes de seus favores, a história está cheia. Venha participar. Só precisa ter voz!

30 março 2011



Metropolis, um filme de Fritz Lang, Berlin, 1927

Argumento e roteiro a partir de uma novela original de Thea Von Harbou

Com trilha original de Gottfried Huppertz

Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, março/2011

Regência de Silvio Viegas


Para além da grandiosa cenografia da cidade do futuro (prevista no roteiro original de Metropolis para o ano de 2016), a eletrizante trilha sonora, mais avançada que qualquer outra partitura para a sua época, ou mesmo a tese da rebelião dos operários claramente inspirada nas revoluções socialistas e comunistas da virada do século, temos um eloqüente epigrama a decifrar neste filme monumental.


O caminho jamais tentado da concórdia no lugar do confronto da luta de classes: “não pode haver entendimento entre as mãos e a cabeça se o coração não agir como moderador”. Ou seja, surge o expressionismo dentre tantas correntes estéticas e políticas do parto da modernidade pela fecunda matriz do romantismo europeu do século XIX, o mesmo romantismo que vai unir as artes à política. Um marco na história da cinematografia mundial uma vez que previu acontecimentos históricos reais como os das ditaduras totalitárias stalinista e nazista a partir dos anos trinta. Além da precoce crítica da desumanização do homem pela revolução tecnológica e pela busca do poder absoluto de controle da natureza.


O filme foi restaurado durante o pós-guerra, mas em 2008 foram reencontrados, na Argentina, 30 minutos de metragem deste clássico que correspondia às indicações da partitura musical que se acreditavam perdidas. Tal parte foi restaurada e acrescentada à versão conhecida para a Berlinale 2010, 83 anos depois da sua segunda estréia mundial. Menções bíblicas como as da Torre de Babel, da vinda de um mediador para selar a paz da humanidade e a do sacrifício dos herdeiros como castigo destinado aos homens independentemente de suas classes sociais, se constituem elementos políticos que transcendem as ideologias de época e que afirmam o poder e a autonomia da arte como discurso que supera as suas vicissitudes histórico-políticas.


O ponto alto do filme é a cena final em que se concretiza a metáfora "O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração!" quando ocorre o simbólico aperto de mão mediado pelo herói Freder entre Grot, líder dos trabalhadores, e Jon Fredersen, o governante-empresário da cidade alta. Utopia, aliás, inicialmente proposta pelos próprios socialistas, tendo sido superada pelos eventos da crua realidade histórica. A própria dupla Thea von Harbou e Fritz Lang se separa durante a ascenção nazista, sendo que Lang emigrará da Alemanha e acabará seus dias na América atrás de um ambiente cultural propício à sua utopia da liberdade. Como da propriedade, que se traduz na verdade como a busca da felicidade da constituição americana, esta jamais alcançada pelos regismes totalitários do comunismo e do nazismo.


Veja o site oficial:



Acesse extratos e trailers no YouTube:


29 dezembro 2010

Uma breve história do Brasil


Uma breve história do Brasil, Mary Del Priore e Renato Venancio
Editora Planeta, São Paulo, 2010

Os autores percorrem a história do Brasil desde quando ainda era a ilha de Vera Cruz até os dias atuais. Através de uma abordagem precisa e rica em detalhes, os historiadores interpretam os fatos da vida nacional de forma leve e acessível. Por meio de capítulos curtos e texto saboroso, narram quais eram os hábitos dos povos que fizeram do passado o nosso presente: o que comiam, como se vestiam, em que divindades acreditavam, o que temiam e o que amavam. A partir da descrição dessas curiosidades, abordam as estruturas política, econômica e social e sua evolução no tempo até os dias de hoje. Vejam por exemplo logo na introdução a descrição do Curupira, o espírito das florestas, um pequeno índio de cabelo vermelho que tinha os pés tornados para trás, deixando rastros em sentido contrário ao de sua marcha; dirigia manadas de porcos-do-mato e, segundo descrição de José de Anchieta, já em 1560, era para os índios que temiam as matas e seus perigos, verdadeiro demônio. Pois é nestes primeiros anos do século XV que se colonizam as capitanias, com a vinda dos capitães donatários e se decide pela tomada do espaço territorial dos indígenas, cessando assim a cumplicidade coletivista inaugural. Assim como se inicia a Inquisição em Portugal em 1536, nada mais simbólico para caracterizar este novo mundo do que a substituição da visão do paraíso inicial pela experiência infernal da ocupação. Se buscavam os chifres do demo em tudo, nada mais propício do que caracterizar o Curupira indígena como uma entidade que troca os sinais, inverte os sentidos, corrompe os valores, enfim, o que poderíamos ver como o próprio estigma da futura identidade nacional. Juntamente com os nobres capitães, muitos deles cristãos-novos, vinha toda sorte de degradados, foragidos da justiça, bígamos e feiticeiras, “os indesejáveis do reino”: - Ora assim me salve Deus, e me livre do Brasil!, esconjura um dos personagens de Gil Vicente no Auto da barca do Purgatório! Se o Brasil nasceu à sombra da cruz, e o estado era cristão, o mercado era de capitais judaicos financiando a produção e comércio do açúcar para as casas reais européias maravilhadas com a doçura da cana. Os valores são corrompidos, sobretudo na gestão pública, mas o lema dos jesuítas IHS – Iesus hominum Salvator nos salvaria pela caridade missionária, traço de solidariedade atávico de que não nos livraríamos até hoje. Passado o ensaio de iluminismo da Inconfidência, quando nosso herói Tiradentes foi escolhido para assumir uma pena capital como forma de amenizar as penas dos bacharéis, pintado inclusive como Cristo por Pedro Américo, as fronteiras imaginárias do Tratado de Tordesilhas na verdade se estenderam para oeste para mais que o dobro do que fora previsto em de 1494. Com a independência, D. Pedro I é sucessor de D. João VI e sucedido pelo então impúbere D. Pedro II. Linha de sucessão de uma casa real de menor importância na Europa, não apenas de pai para filho como convinha às monarquias, mas de titulares de valores, credos, costumes, políticas e algum apreço especial pela riqueza do estado português, até mesmo como o meio mais seguro de riqueza de seus próprios domínios. E assim como a família real, também os nobres portugueses vinham às novas terras “fazer o Brasil”, como na expressão da época. Não fosse assim, com a onda de alternância republicana européia e americana, o que garantiria, para além do manancial inesgotável de matérias-primas, a herança dos valores e da própria história de um povo senão a sucessão monárquica? Mas nosso último imperador, D. Pedro II, era um estadista acima de seu tempo, como conselheiro da casa dos Habsburgo e até mesmo da rainha Victoria, era um dos mais esclarecidos monarcas do mundo de então. Abolicionista, democrata, meritocrata e até mesmo parlamentarista, formulador e executor da estratégica política de imigração européia, jamais imaginou que esse princípio maior da sucessão monárquica e de sua função como poder moderador e garantidor de valores e da própria história, entre governantes e governados, última instância da justiça e comando máximo do exército, fosse quebrado por parte de uma oligarquia escravista e gananciosa em conluio com uma oficialidade ingênua e positivista, uma lamentável e vil traição através de uma quartelada republicana, em 1889. Começamos definitivamente a celebrar a máxima corrupção do valor da liberdade e da política: uma república de oligarcas escravistas envergonhados. Uma república como uma sucessão de quarteladas, onde o próprio lema positivista é corrompido e “simplificado”, na sua redução ao fim do progresso, sobre a base da ordem, mas sem princípio do amor (como da justiça)!
Acesse algumas entrevistas com os autores:
http://www.youtube.com/watch?v=baFGL4N4WsI&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=QNJvM3qslIg&feature=related

30 novembro 2010

Filosofia política em Eric Voegelin


Dos megalitos à era espacial
de Manedo Castro Henriques

Eric Voegelin (1901-1985) foi um dos maiores filósofos do século XX, sobretudo no âmbito da cultura saxã. Muito pouco conhecido na área de influência da cultura latina, é auspicioso que seja introduzido na lusofonia pelo professor da Universidade Católica de Lisboa Mendo Castro Henriques. Eric Voegelin nasceu em Viena e se tornou professor de ciência política da faculdade de direito quando, em 1938, perseguido pela Gestapo, teve que fugir para a Suíça e depois para os Estados Unidos, onde obteve a cidadania americana. Durante a sua vida publicou mais de 30 livros, dos quais se destacam a monumental História das Idéias Políticas e Ordem e História, este já traduzido para o português. Um dos seus livros mais conhecidos e que lhe rendeu a perseguição nazista foi exatamente Hitler e os alemães, onde aprofunda as razoes histórico-culturais da suicida aventura nazista. Eric Voegelin passa a construir uma solida obra de reflexão sobre a desrazão das ideologias dominantes no século XX como o nazismo, o comunismo soviético, o fascismo etc. Mas sua maior crítica é sem dúvida a Karl Marx, cuja ideologia denuncia como uma leitura deturpada de Hegel, uma vez que, quando a realidade entra em conflito com Marx, ele descarta a realidade. O panorama da historia das idéias políticas em Voegelin parte das ordens sobre as quais são construídas as sociedades humanas: desde a ordem cosmológica da era dos megalitos, passando pelas ordens antropológica, teológica, de estados nacionais, à nova ordem das poliarquias. Para Voegelin, o momento decisivo é o século VI a.C. quando surgem, nos quatro cantos do planeta, pensadores que transformam a perspectiva cosmológica em antropológica propriamente dita: desde Confúcio, na China, passando por Sidarta, na Índia, por Zaratustra, na Pérsia e os grandes profetas israelitas, até os pensadores da filosofia grega da passagem da mitologia para a epistemologia. Desmistifica, portanto, a tese materialista de que a historia dos conflitos humanos se move pela luta de classes e suas ideologias, quando na verdade são as idéias que fazem mover a marcha da historia pela sua própria manifestação. Para a passagem da ordem teológica para a ordem dos estados nacionais, Voegelin se fixa na passagem do ano de 1516 para 1517, quando surge a reforma protestante de Lutero, na Alemanha, antecedida pela publicação de pelo menos três grandes obras da filosofia política iluminista: O Príncipe de Maquiavel, A Utopia de Thomas More e O Elogio da Loucura de Erasmo de Rotterdam. Todos tratam de pensar a ordem do estado como meio de se alcançar a convivência pacífica e segura entre os homens e a própria democracia como ideal político. Só a democracia é determinada pelas condições históricas e culturais de cada sociedade que a persegue, sendo que Voegelin aponta sempre três fatores para sua manutenção: elites democráticas convictas do valor da liberdade e da dignidade humanas, um sistema eleitoral livre e transparente e programas e propostas de governo claras e verdadeiras. Uma constituição, por exemplo, e como no caso inglês, segundo Voegelin, pode-se escrever em seis meses. Já um sistema político-eleitoral e partidário livre e transparente, pode-se levar seis anos. Já uma elite política verdadeiramente democrática, que não caia na tentação totalitária das tiranias ou oligarquias, pode levar até 60 anos, ou mais de duas gerações para a sua construção. E sua idéia de nação como um conjunto de bens gratuitos como as tradições, a língua, ou a própria idéia de povo e de cidadania, é determinante para a consecução da democracia, para além de uma paródia à tese da inexistência de almoço grátis de Milton Friedman, como a libertação da política do imediatismo da economia. Mas a maior contribuição de Voegelin à filosofia política contemporânea se dá na sua concepção da república enquando politéia. Aliás, a própria República de Platão se intitulava em bom grego antigo de Politéia exatamente por que não tinha esta concepção de ordenamento jurídico institucional que nos foi passada pela tradição romana, onde já se privilegiava a visão governamental sobre a da cidadania, dos legistas e juristas sobre a da assembléia de cidadãos. Politéia neste sentido implica na ação política do cidadão, exatamente o que nos faltou na tradição republicana. O que torna essencial o pensamento da filosofia política de Voegelin para o enriquecimento do debate da cidadania e do seu papel de elite condutora do processo democrático.
Acesse mais em:
http://www.erealizacoes.com.br/default.asp
http://www.voegelinview.com/
http://www.youtube.com/watch?v=M1GtdcD9Ibk
http://www.youtube.com/watch?v=54UyHB2qncY&feature=channel_page%3E%3Ca%20href=